Histórias para vestir
Quimono 99
Vazio
Naquela época, o tema do vazio parecia pairar no ar e, ao mesmo tempo, eu estava apaixonada.
Um paradoxo, não é?
Como pode haver vazio onde uma relação está apenas começando?
Mas o vazio também pode surgir assim.
Perguntei a vocês nos stories como vivenciam esse vazio. Recebi muitas respostas e, em quase todas, ele aparecia não como um “nada” definitivo, mas como um espaço cheio de potencial.
Na minha própria sensação de vazio, de repente percebi seu polo oposto: a densidade e a intensidade do interesse. A riqueza de outros sentimentos ao lado dessa pessoa.
Será que o vazio seria tão vazio sem essa densidade? Acho que não.
Aos poucos, o vazio começou a mudar de contorno. Ficou parecido com uma névoa translúcida entre dois polos:
a vontade de me aproximar
e o desejo de me afastar.
Percebi que o meu vazio estava entre duas possibilidades diametralmente opostas. O vazio como uma zona intermediária.
Indefinida, nebulosa, frustrante, mas, ao mesmo tempo, surpreendentemente fértil.
O vazio começou a morrer ao tomar forma, e essa forma era apenas um estado temporário.
Foi assim que, aos poucos, fui entendendo como esse quimono deveria ser.
E foi assim que ele nasceu: como um guia por um estado de transição.
Qualquer uma das minhas identidades,
“psicóloga”,
“criadora de quimonos”,
“apaixonada”,
é apenas um estado.
No momento em que estou inteiramente nele,
ele é absolutamente real, mas não é definitivo.
A forma do processo muda, mas o processo continua.
E talvez seja justamente por isso
que o vazio nunca é
verdadeiramente vazio, nem o sentido é compreendido por completo.